Apesar das vírgulas.*
Ninguém mais acredita no poder da gramática; na sutileza bem escrita que sublimaria um ‘NÃO’, por exemplo. Ainda assim querem verbalizar sentimentos. Atiram tudo dentro de um envelope e enviam por sedex ou copiam um texto super mal escrito de um site qualquer e pronto: eis o seu depoimento de ‘Feliz Aniversário’.
Transformaram sentimentos em clichê. Assim: sem dó. Conjugá-los tornou-se algo tão espontâneo quanto dizer ‘Bom dia’, de dia ou ‘Boa noite’, à noite. Perderam o sabor do mistério. Eles são quase cuspidos subitamente. Habitam a vontade. Só. Digo, sentimentos existem porque tu os alardeias desesperadamente. Sempre é mais simples escrevê-los do que dizê-los. Pior: sentí-los deixou de ser prioridade, há tempos.
A linguagem é uma salada. Um mal entendido. Misturaram o que deveria ser indizível com o óbvio. Pluralizaram algo concreto, ainda que o concreto independesse de visibilidade. Complexizaram a simplicidade do verbo sentir.
As frases justificam o que nem o teu rosto consegue descrever. Essa coisa banalizada é só uma armadura. Os teus sentimentos são datados; um discurso auxiliado pela tua bela entonação. São um texto dependente de sintaxe.
*Dedicado a Jéssica Litielle, que sempre me incentiva.

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